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Carina Meireles, consultora financeira (Foto: Divulgação)

As implicações dos atrasos nos empréstimos para as empresas

Por: Carina Meireles, consultora financeira

Esta crise sem precedentes, está a afetar vários setores empresariais. Muitas são as empresas que já fecharam por causa das diretivas definidas nas decisões do Governo e outras ainda se encontram preocupadas como irão resolver situações mais urgentes como pagamento de salários ou mesmo créditos que estejam a decorrer e que seja necessário o pagamento das prestações, dado que muitos negócios arrancaram no início de maio.

Estamos perante grandes atrasos ao nível da disponibilidade de créditos abrangidos pelas empresas que recorreram ao apoio do Estado, o que de certa forma condiciona o esforço que as empresas estão atualmente a fazer para sobreviver a esta crise, mantendo postos de trabalho, tentando a todo o custo ultrapassar este período difícil também ele económico, mesmo com o regresso de acordo com as medidas impostas pelo Estado.

Os bancos estão com muitos pedidos em mãos e também eles pretendem responder rapidamente a todas as situações apresentadas pelas empresas que solicitaram apoios, mas sempre com a vertente comercial inerente ao que lhes é possível, através dos spreads e da taxa efetiva, para além das comissões de garantia, que também devem ser tidas em consideração.

As linhas de crédito no valor de 3 mil milhões de euros, garantidas pelo Estado, estão com determinadas condições que, para a maioria das empresas, de acordo com o número de colaboradores não chega para fazer face às necessidades de curto prazo.

Esta espera por parte dos bancos não está a ajudar em nada as empresas que precisam de recomeçar, de reconstruir todo um processo, moroso e difícil de não o prolongar no tempo.

Estamos a atravessar uma fase de adaptação constante onde muitas empresas, apesar de já estarem com as medidas impostas pelo Governo, mas a trabalhar, tiveram grande parte delas prejuízos superiores a 50%, principalmente se nos referimos ao turismo. Este é um dos setores mais afetados por esta crise toda ela provocada pelo Covid-19, nunca deixando se ser económica, tendo sido necessário ajustamento obrigatório através de criação de formas de trabalho adequadas à situação do País, estando agora a tentar voltar-se a um normal fora do normal.

Para poder aceder a estas linhas de financiamento, como todas as empresas tem de ter as situações nas mais diversas entidades como Segurança Social, Fisco, a própria banca, etc., no ano de 2019 devidamente apresentadas e regularizadas, sendo este um critério obrigatório para a análise e atribuição da linha de crédito respetiva. As empresas que tenham apresentado resultados negativos em 2019 não poderão estar enquadradas neste regime.

É, sem dúvida, importante e imperativo que estas empresas tenham estas verbas em cima da mesa disponibilizadas pelos bancos, para fazerem face a custos inerentes a toda esta crise provocada por esta pandemia e que, mesmo assim, em grande parte delas, irá ficar muito aquém do que era expectável e necessário, para se poderem posicionar novamente no mercado, mercado este todo ele em recuperação com uma luz ao fundo do túnel, mas com um túnel com muitos quilómetros de distância.

Podemos também assistir a empresas que possam utilizar esses apoios, mas que possam mesmo assim não sobreviver, porque agora e cada vez mais vai ser necessário muito jogo de cintura.

Esta situação também pode originar um incumprimento futuro destas mesmas empresas, que tiveram acesso a estas mesmas linhas de financiamento, podendo a banca ter de entrar neste campo, de forma a minimizar ao máximo que aconteçam estas situações.

Esta crise económica, deve deixar as empresas a pensar que medidas poderiam ter adotado e não o fizeram. Uma das possíveis estratégias poderia ter sido a criação de um Fundo de Emergência empresarial, que de certa forma faria toda a diferença, porque iria permitir ter um valor de reserva que poderia ajudar a fazer face às despesas inesperadas, ou seja, estar com as despesas pagas num ano. Por isso é que ter um fundo de maneio, também ele associado às empresas, nunca fez tanto sentido. Este fundo deve sempre corresponder a um ano de todas as despesas mensais, por forma a fazer face a eventuais constrangimentos fora de tempo como estes desta crise intemporal.

Aos poucos e poucos, o setor empresarial no nosso País vai reerguer-se e aprender que temos que saber e estar preparados para imprevistos, sejam eles quais forem.