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Henrique Paranhos, fundador da WEbrand Agency (Foto: Divulgação)

O momento extraordinário em que vivemos

Por: Henrique Paranhos, fundador da WEbrand Agency

Vivemos momentos extraordinários. E escrevo na forma mais literal da palavra.

Desde há uns anos, quando comecei a falar em abrir uma empresa remota e como o remotework poderia afetar a nossa qualidade de vida, a sustentabilidade do planeta, etc., sempre ouvi todo o tipo de argumentos. “As minhas funções não permitem”, “O meu chefe não deixa”, “Nunca daria na minha empresa”, “Eu não me iria habituar”…

Pois parece que as Tuas funções afinal permitem. Parece que o Teu chefe afinal deixa. Parece que na Tua empresa afinal dá. Parece que vamos ter Todos de nos habituar. Por isso, parabéns a todas as empresas e gestores que tomaram a decisão sensata de não parar de trabalhar e mandar todos os seus colaboradores para casa e parabéns a todos os colaboradores que aceitaram esta decisão ou que a tomaram voluntariamente.

Se por um lado fico animado que possa ser visto como uma possibilidade, por outro tenho receio de que o desconhecimento e a forma atabalhoada da sua implementação, bem como o seu carácter excepcional, possa resultar num ainda maior desconforto com o tele-trabalho. E com os mercados parados na expectativa, a economia abrandará. E todos sabemos que o culpado vai ser o trabalho remoto, que não resultou… E isto deixa-me com receios.

Mas não queria que este artigo fosse apenas sobre trabalho remoto. Porque os momentos extraordinários em que vivemos vão muito além da forma como trabalhamos. Este é o momento de repensarmos a forma como vivemos em sociedade, como socializamos, como nos comportamos. É um momento de reflexão e aprendizagem para toda a humanidade.

A História é cíclica e alguns eventos repetem-se. Foi assim na Gripe Suína, na Gripe Espanhola, na Gripe Asiática, na Peste Negra, Cólera, etc. Em todas estas epidemias sofremos baixas duríssimas mas aprendemos. Voltamos mais fortes e evoluímos enquanto espécie.

Acredito que o que estamos a viver poderá ter a mesma dimensão. Curioso que seja preciso um vírus para nos fazer abrandar e repensar tanta coisa, mas as consequências do abrandamento já se fazem sentir na redução da poluição e na forma como trabalhamos, só a título de exemplo.

Não entrando em considerações de saúde pública, pois não sou de todo a pessoa indicada para tal, espero que tudo isto seja um momento de aprendizagem para todos nós. É um momento extraordinário para refletirmos sobre a forma como produzimos, a forma como consumimos, a forma como tratamos os mais desfavorecidos, os mais frágeis, os que têm o sistema imunitário enfraquecido, os que têm doenças prolongadas… No fundo, refletirmos sobre a forma como vivemos em sociedade e tratamos o nosso planeta.

Não vale a pena multiplicar ainda mais a quantidade de informação que tem vindo a ser debitada sobre este tema. Vou, em vez disso, terminar com uns parágrafos que o Bruno Nogueira escreveu recentemente e que subscrevo na íntegra:

“Não é por me sentir saudável que sigo a vida como se nada estivesse a acontecer. Posso a qualquer momento contrair o vírus, e antes de ter sintomas espalhar a quem não tem sistema imunitário forte o suficiente para o combater. Isto não é sobre mim, é sobre uma coisa maior do que eu. É sobre nós. E é esse degrau mental que me faz ter consciência que a minha prioridade tem de ser colectiva, e não minha e do meu espelho. Não ceder ao pânico, o pânico é um vírus que mata por dentro. Faço as compras para os dias que se seguem, e não para os meses que estão por vir. Há idosos e pessoas com menos disponibilidade financeira que precisam de prateleiras de supermercado que não estejam repletas de medo. Cancelei viagens ao estrangeiro que tinha no final deste mês. Perdi dinheiro, ganhei tempo. Não acontece só aos outros. Os outros somos nós. Hoje mais do que nunca. Mantenho as crianças informadas, não multiplico o que leio na imprensa, não faço vista turva. Filtro.

Não ceder à histeria nem à indiferença, são os dois contagiosos. Acreditar que todos juntos ultrapassaremos isto. São tempos confusos, mas a luta será ganha. Não olhar para os números de infectados em Portugal e achar que são poucos e que “ainda não é tempo de agir”. É agora, está a acontecer.

Nesta história não há nós e eles, há todos. E juntos, não tenho dúvidas disso, vamos escrever o melhor final que esta história pode e merece ter.”