Por: Natacha Branco, Mentee do Programa de Mentoring da PWN Lisbon e Principal Associate da Cuatrecasas
Corria o ano de 2021 e alguém que me é muito querido afirmava em jeito de prólogo “devias fazer o mentoring da PWN Lisbon” e eu, embora tivesse pensado que jamais seria selecionada, candidatei-me. Fiz o processo de recrutamento inteiro a pensar que aquilo podia não ser para mim, mas que a possibilidade de encontrar pessoas bem-sucedidas, eventualmente, me acrescentaria. Encontrei no mentoring o que ainda não tinha encontrado em mais lado nenhum. É certo que ao longo da minha vida fui tendo mentores, ora na escola, ora na faculdade, ora em cada escritório por onde passei, e a todos eles sou imensamente grata. Todavia este programa oferece-nos completude, é ter a possibilidade de, querendo, ver e conhecer outras realidades, que são aparentemente diferentes da nossa, mas comuns nos desafios e ter, a par disso, um mentor dedicado ao nosso crescimento pessoal e profissional.
Quando me apresentaram a minha mentora pensei imediatamente: “gostava de ter aquela energia e confiança”, e, hoje, acho que isto é a chave para um programa de mentoring ser bem-sucedido: admirar quem nos orienta.
A PWN Lisbon é sobretudo uma rede de contactos com o objetivo de dotar mulheres de ferramentas que lhes proporcionem um melhor posicionamento na sua carreira, mulheres que querem ou precisam de abraçar novos desafios e que sentem que lhes falta algo para atingir esses objetivos. A PWN Lisbon pugna nobremente pela diversidade na liderança, pela inclusão e equidade, dando voz ao evidente, à lacuna de todos os dias, presente em muitas organizações e empresas – há falta de mulheres na liderança e, não o digo num tom que abraça o feminismo, mas antes de pés assentes na realidade – é preciso fazer acreditar, capacitar, e criar pontes entre mulheres que sejam líderes, que o tenham sido, que o queiram vir a ser ou que o não saibam ainda, mas podendo a isso almejar através de um espaço comum para tentar, testar e conhecer.
O programa foi essencial para ganhar mundo, perceber que mulheres nos mais diferentes estágios na carreira enfrentam dificuldades semelhantes.
Quando cheguei tinha uma ideia do que queria, mas não sabia como lá chegar – achei durante muto tempo que o caminho era demasiado sinuoso e que não era merecedora ou que não teria o perfil. A minha mentora não me deu respostas, ajudou-me a pensar e a agir numa zona de desconforto. Durante um ano trabalhámos (i) a comunicação, (ii) a construção de uma rede de contactos, (iii) a gestão de tempo, (iv) a gestão de expectativas e a (v) confiança. Trabalhámos o que para mim seria o perfil ideal, trabalhámos as minhas falhas, a minha comunicação e a perceção da realidade que me rodeia, seja a montante ou a jusante de mim mesma.
Foi através da definição de um objetivo específico que todo o programa se desenrolou, entre a desconstrução daquela perceção e a sua decomposição entre facto (acontecimento), emoção (o que sentimos sobre determinado acontecimento) e história (o que contamos a nós mesmos e aos outros sobre o que sentimos), fui encontrando caminho. Há diferenças largas nesses três conceitos e algures no meio reside a verdade.
Quando o programa terminou fiquei hesitante, sem certeza de que algo tinha mudado realmente, e, mais uma vez a minha perceção estava enviesada. Mudou o suficiente para que, paulatinamente, fosse atingindo o objetivo que defini no início do programa e isso aconteceu apenas pela alteração na predisposição para arriscar. Embora tenha recebido mais vezes interrogações do que respostas, lembro-me da que mais me marcou: “Não digas mal de ti própria”. Sem me dar conta a forma como lia a realidade mudou.
À pergunta “o que atingiste?” respondo que aprendi a arriscar de forma calculada, aprendi a delinear uma estratégia, a comunicar melhor e a limar o meu perfil, entendi que a capacidade técnica representa pouco se não estiver coberta de comerciabilidade.
O conhecimento adquirido permitiu-me, ainda durante o programa, aceitar um novo desafio, demonstrando ter as competências técnicas e a capacidade de aprendizagem necessárias para ser referência na área em que trabalho numa posição com mais responsabilidade e visibilidade.
E, se tantos auguram que não se deverá mudar muitas vezes, a mim parece-me que se deve mudar aquelas que forem necessárias, se isso estiver alinhado com a estratégia que definimos para nós mesmos.
Algum tempo depois, um dos principais objetivos materializou-se, desta feita num escritório internacional, tendo a par de tudo isto cumprido outro que estava há demasiado tempo suspenso, defender com sucesso a minha dissertação de mestrado.